Sofrer por não ler

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    Por Carlos Stegemann, jornalista e escritor

    Reencontrar potenciais leitores é sempre um privilégio e por justiça é preciso dedicar aplausos à Secretaria Municipal de Educação de Florianópolis e à Câmara Catarinense do Livro, que proporcionaram essas oportunidades, no meu caso em escolas dos bairros Ingleses e Vargem Grande e na Legião da Boa Vontade, marcando a Semana Municipal do Livro Infantil, em meados do último mês de abril.

    Não é difícil constatar a distância entre o livro e as crianças, na mesma proporção que percebemos os esforços dos professores em promover a leitura como hábito. Quando questionados, muitos estudantes da faixa etária de 10 a 13 anos afirmam que gostam de ler, mas admitem: 1. Os games são mais atrativos; 2. Não conseguem manter a média de um livro/mês; 3. Não lembravam o título da última obra consumida; 4. Quase todos liam obras de baixa qualidade, os ‘blockbusters’ do entretenimento infantojuvenil, de Harry Potter a Bananas de Pijamas; 5. Não carregavam livros entre seus materiais diários nem liam diariamente.

    O desafio de construir um leitor na era da comunicação digital é algo penoso, porém ainda mais difícil e talvez impossível sem uma biblioteca na escola, como constatei em uma unidade visitada. Sem integrar as disciplinas – ler, afinal, não se restringe à literatura, mas é uma ação de baixo custo e capaz de promover a disseminação do conhecimento da forma mais democrática possível. Sem que os professores sejam fonte de inspiração, lendo e promovendo a leitura de qualidade. Sem abranger a família – e há muitos exemplos de que os alunos que aderem à leitura contagiam irmãos e pais. Sem incorporar agentes da comunidade, aqui entendidos como cidadãos voluntários, entidades de classe, empresariais ou religiosas. Por fim, valorizando e aperfeiçoando as iniciativas já existentes – e em Florianópolis destaco o Clube da Leitura, Gente Catarinense em Foco, também da Secretaria Municipal de Educação.

    Somos todos culpados pelo desolador cenário quando analisamos os indicadores de leitura de nossos jovens. Somos todos responsáveis – e, sobretudo, capazes – de reverter esse quadro e construir a cidadania do futuro breve.

    (*) Foto das turmas da Escola Básica Herondina Zeferino Medeiros, em Ingleses.